OPlanoB
www.oplanob.com é um projeto jornalístico de extensão do grupo de pesquisa Informação, Comunicação, Tecnologia e Sociedade
Lições de uma cibernética politicamente engajada em prol da democracia
Mesmo que a historiografia tecnológica convencional costume situar o epicentro da inovação no Norte, relegando o Sul Global ao papel de mero espectador ou consumidor, sabe-se que há vários exemplos alternativos e de resistência abaixo da linha do equador.
Um deles foi o Projeto Cybersyn no governo de Salvador Allende, mas esse esforço não foi o único. Entre as décadas de 1960 e 1990, o britânico Stafford Beer, pai da cibernética organizacional, percorreu a América Latina auxiliando empresas e governos a implementar projetos parecidos.
José-Carlos Mariátegui, pesquisador da Universidade Luiss Guido Carli, em Roma, aborda um pouco dessa história por meio de um artigo publicado na revista científica Systemic Practice and Action Research. O trabalho "Beyond Project Cybersyn" rompe com o reducionismo histórico e investiga a trajetória dos projetos de Beer no nosso continente.
Para ler mais: https://oplanob.com/licoes-de-uma-cibernetica-engajada-em-prol-da-democracia/
Sem solucionismos: A saída do capitalismo plataformizado só pode ser política
Os dados não são o novo petróleo, assim como o petróleo não foi o que definiu as formas de trabalho no século passado. Muito além de tecnologia ou inovação, a principal característica do capitalismo de plataforma reside na transformação do trabalho, que agora é plataformizado.
“Há uma conexão entre o capitalismo de plataforma e a ideologia neoliberal.” Essa é uma das reflexões do artigo “Theses on Platform Capitalism and Neoliberalism – Reflections on Global Trends From the (Semi)Periphery of Capitalism”, de autoria de Eduardo Altheman C. Santos, atualmente vinculado ao Käte Hamburger Centre for Apocalyptic and Post-Apocalyptic Studies, da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. O trabalho, publicado na revista TripleC, usa dados de uma etnografia, realizada entre 2020 e 2021, entre trabalhadores de aplicativo em São Paulo-SP.
Para ler mais: https://oplanob.com/sem-solucionismos-a-saida-do-capitalismo-plataformizado-so-pode-ser-pela-politica/
Ao funcionar como máquina das elites, IA turbina o autoritarismo
A IA altera o que é o autoritarismo, como ele é conduzido e o que ele é capaz de realizar. Modifica suas qualidades centrais, incluindo a centralização do poder, a supressão da dissidência, o culto a um líder humano e a impossibilidade de responsabilização.
Esta reflexão crítica está no artigo "AI Authoritarianism: Towards an Analytical Framework", publicado no periódico Transactions of the Institute of British Geographers da John Wiley & Sons Ltd. Os pesquisadores Thomas Dekeyser (Universidade de Southampton), Casey R. Lynch (Universidade de Girona) e Sophia Maalsen (Universidade de Sydney) propõem que a IA não está apenas estendendo o autoritarismo, mas está remodelando-o.
Para ler mais:
https://oplanob.com/ao-funcionar-como-maquina-das-elites-ia-turbina-o-autoritarismo/
IA e Capitalismo de Vigilância NO, PELO E A PARTIR do Sul Global
Nosso seminário presencial
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15/04 - 14h
No Coletivo Digital - Em São Paulo-SP
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Soberania digital como “serviço” é a nova estratégia ideológica das big techs
Nos últimos anos, as maiores big techs lançaram novos produtos vendendo “soberania como serviço”, para governos e para o setor público. Microsoft, Amazon e Google entraram nessa disputa ideológica para esvaziar o conceito de soberania digital.
A proposta é apenas uma jogada comercial. É assim que avaliam os pesquisadores Rafael Grohmann, da Universidade de Toronto, no Canadá, e Alexandre Costa Barbosa, da Universidade das Artes de Berlim, na Alemanha, no artigo “Sovereignty-as-a-service: How big tech companies co-opt and redefines digital sovereignty”, publicado no periódico Media, Culture & Society.
Ao vender "nuvens soberanas", as empresas garantem que os Estados permaneçam dependentes de suas infraestruturas globais. Isso permite que os governos mantenham um discurso público de soberania digital enquanto, na prática, continuam dependentes de uma empresa privada e estrangeira.
Para ler mais: https://oplanob.com/soberania-digital-como-servico-e-a-nova-estrategia-ideologica-das-big-techs/
Governo como serviço: especialistas e tecnologias estão remodelando cidades e transformando cidadãos em clientes
Imagine os corredores onde as políticas que moldam o futuro de uma metrópole são desenhadas. Ao lado dos servidores públicos, sentam-se consultores de empresas privadas, não apenas para dar conselhos pontuais, mas para fornecer a própria capacidade de governar como um serviço pago.
Quem realmente toma as decisões? Esta dinâmica é o cerne de uma pesquisa que revela a crescente influência do setor privado no coração do estado, um fenômeno chamado de "Estado-Consultor"
As ideias são no artigo "Consultancy State: Government as (a) Service and the Anti-politics of Technological Expertise in Indian Cities", dos autores Matt Birkinshaw e Sanjay Srivastava, publicado no periódico International Journal of Urban and Regional Research. O estudo oferece um olhar profundo sobre como a busca pela boa governança através da tecnologia está remodelando o Estado, a cidadania e o futuro das cidades na Índia.
Para ler mais: https://oplanob.com/antipolitica-como-servico-especialistas-e-tecnologias-remodelam-cidades-e-transformam-cidadaos-em-clientes/
Deportados dos EUA se tornam mão de obra barata nos call centers do México
Pode haver uma lógica encoberta nas políticas anti-imigração nos EUA: elas fazem sentido se pensadas como uma forma de reduzir os custos das empresas estadunidenses sediadas em outros países. O trabalho humano é contratado nos países periféricos e o capital continua fluindo sem atrito por cabos de fibra óptica.
A anatomia dessa exploração é detalhada pelo pesquisador Mateo Crossa, professor do Instituto Mora, na Cidade do México, no estudo “Cybertariats in the export-oriented service sector: The case of call centres in Mexico”, publicado no periódico Work Organisation, Labour and Globalisation. Ele relata a ascensão do que a sociologia do trabalho denomina cibertariado: uma classe trabalhadora que serve ao Norte Global a partir de um exílio forçado.
Para ler mais: https://oplanob.com/deportados-dos-eua-se-tornam-mao-de-obra-barata-nos-call-centersdo-mexico/
SoftBank reedita um imperialismo inspirado nas estratégias japonesas do século passado
O SoftBank é um dos maiores fundos de investimentos da área de tecnologia e parece ter um apetite insaciável por risco e lucro. Mas há algo por trás dos seus métodos que está enraizado nas estratégias econômicas desenvolvidas em tempos de crise e reconstrução nacional japonesa dos anos 1930. Repete traços de um imperialismo e neocolonialismo com características modernas da atual fase do capitalismo digital e plataformizado.
Essa são algumas das conclusões dos pesquisadores Jack Linchuan Qiu, da Universidade Nanyang Technological de Singapura e Chris King-Chi Chan, da Universidade Royal Holloway de Londres. Eles publicaram o artigo “SoftBank: empire-building, capital formation & power in Asian digital capitalism” na revista New Political Economy.
Para ler mais: https://oplanob.com/softbank-reedita-um-imperialismo-inspirado-nas-estrategias-japonesas-do-seculo-passado/
Big techs e eleições: a chance que o Brasil está perdendo
Domesticar a selvageria das plataformas é urgente, mas país hesita em dar um passo a mais. Significa construir um ecossistema informacional soberano, que combata a desinformação e resgate a internet. Alternativas livres como Fediverso, com apoio do Estado, estão disponíveis
Cosmocomputação como alternativa ao apocalipse algorítmico
A cosmocomputação é uma ferramenta para desmantelar o autômato fascista, abrindo espaço para imaginações que não dependam da expropriação da carne. O objetivo é subverter o algoritmo da destruição, trocando a soberania do capital pela radical liberdade do incomputável e do incomensurável.
A análise foi feita no artigo "Recursive Apocalypse", publicado no periódico Communication, Culture and Critique. O texto reúne importantes pesquisadores como Ezekiel Dixon-Román (Columbia-EUA), Luciana Parisi (Duke-EUA), Oana Pârvan (Inglaterra) e Tiziana Terranova (Nápoles-Itália). Eles argumentam que a computação é um braço tecnológico do "colonialismo recursivo", um padrão que recicla os projetos coloniais europeus por meio da abstração algorítmica, e a cosmocomputação seria uma forma de resistência.
Para ler mais: https://oplanob.com/cosmocomputacao-como-alternativa-ao-apocalipse-algoritmico/
Cédula Digital Colombiana expõe o colonialismo digital e ameaça a soberania do país
A Colômbia implantou recentemente a Cédula Digital Colombiana por meio de parceria entre o país e a empresa de francesa IDEMIA. A empresa ganha em duas frentes: pelas consultas e pelas autenticações. Mas, além disso, também pode lucrar revendendo dados pessoais para fins de marketing a outras big techs.
Essa relação entre uma empresa estrangeira e órgãos governamentais colombianos foi apresentada pelos pesquisadores Joan Lopez-Solano e Juan Diego Castañeda no artigo “‘A promising playground’: IDEMIA and the digital ID infrastructuring in Colombia", publicado no periódico Information, Communication & Society.
As inconsistências, os riscos e as dúvidas sobre o modelo de negócio da IDEMIA foram revelados no “Informe de hallazgos: Análisis de la aplicación Cédula Digital”, um relatório publicado pelo Laboratório de Segurança Digital e Privacidade da Fundação Karisma (K+Lab).
Para ler mais: https://oplanob.com/cedula-digital-colombiana-expoe-o-colonialismo-digital-e-ameaca-a-soberania-do-pais/
Dadificação da morte: um genocídio controlado por IAs e comandado por Israel
Na guerra da Faixa de Gaza, perpetrada por Israel, os ataques se diferenciam por utilizar inúmeros sistemas de vigilância com auxílio de IAs que automatizam a classificação e identificação de supostos alvos. Os programas Lavender, The Gospel e Where’s Daddy operam conjuntamente para identificar o que seriam suspeitos e sugerem intervenções prevendo, já de antemão, a morte de um número significativo de pessoas.
Essas tecnologias já são parte da atuação institucional do exército de Israel como uma "estrutura de vigilância genocida" (GSA, em inglês), termo proposto pelos pesquisadores Mais Qandeel, da Universdade de Galway, na Irlanda, e Özgün Erdener Topak, da Universidade de York, no Canadá. Eles publicaram o artigo “Genocidal Surveillant Assemblage in Palestine: A Socio-Legal Analysis” no Journal of Genocide Research onde aprofundam o estudo do desses sistemas.
#globalsouth #surveillancecapitalism #gazawar
Para ler mais:
https://oplanob.com/dadificacao-da-morte-um-genocidio-controlado-por-ias-e-comandado-por-israel/
Subimperialismo: capitalismo de plataforma na sua versão tropical
Ser grande regionalmente, estabelecendo o mesmo modelo de negócio das grandes big techs, também pode dizer mais sobre os países que desempenham um papel intermediário entre as nações hegemônicas do Norte e os países explorados no Sul.
Segundo Kenzo Soares Seto, pesquisador vinculado ao Programa de Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esse é um papel subimperialista, uma posição intermediária e de relevância regional. Esta afirmação está no artigo “Platform sub-imperialism”, publicado na edição temática Critical Data Studies in Latin America do periódico Big Data & Society. Ele utiliza o iFood como estudo de caso.
Para ler mais: https://oplanob.com/subimperialismo-capitalismo-de-plataforma-na-sua-versao-tropical/
Não há almoço grátis, nem benevolência: IA reforça os domínios pós-coloniais
A IA é o assunto do momento e ela está reestruturando - ou intensificando - todas as dimensões da economia global, principalmente suas assimetrias.
Kai-Hsin Hung, pesquisador da Universidade HEC Montreal, no Canadá, propõe mapear a colonialidade do poder da IA no recente artigo “Artificial intelligence as planetary assemblages of coloniality: The new power architecture driving a tiered global data economy”, lançado na revista Big Data e Society.
Dentro do contexto da pesquisa sobre o Capitalismo de Vigilância no Sul Global, um dos eixos que orientam a pesquisa bibliográfica deste OPlanoB, isso ajuda a pensar nas articulações de dominação, em diferentes níveis, que envolvem todo o desenvolvimento de políticas, tecnologias e de trabalho sobre a IA.
O autor do artigo traz uma contribuição metodológica relevante propondo interpretar as questões de poder e dominação a partir um sistema orbital, envolvendo diversas camadas. Assim, fica mais evidente que políticas nacionais ou desenvolvimentos locais não brotam espontaneamente, nem tampouco são meras reproduções de países centrais. Ao mesmo tempo, colocar a China como um polo importante de convecção pode abrir uma série de outras questões para compreender as assimetrias internas ao Sul Global.
Para ler mais: https://oplanob.com/nao-ha-almoco-gratis-nem-benevolencia-ia-reforca-os-dominios-pos-coloniais/
A comunicação da ciência no Fediverso
Por Damny Laya e Rafael Evangelista
(...) O projeto de divulgação científica, leva por nome “Ciência em construção: praticando a soberania digital nas universidades públicas: abrindo as portas do Fediverso”, e visa à criação de um modelo de divulgação científica autônomo e democrático, livre da dependência das big techs, e fortalecer a cultura da ciência aberta (...)
https://www.comciencia.br/a-comunicacao-da-ciencia-no-fediverso/
O Sul Global é capaz de produzir IAs alternativas às big techs
A ascensão das IAs generativas revelou profundas assimetrias entre Norte e Sul. Mas, longe de ser um ator passivo, o Sul Global possui uma rica história de ativismo, inovação e uma cultura de apropriação. Essas tradições inspiram práticas críticas que buscam remodelar a IA para atender a contextos locais e promover a justiça social, mesmo dentro dos limites impostos pelas big techs. É a capacidade de hackear o que já está pronto, de produzir gambiarras ao seu favor.
Pesquisadores destacaram algumas dessas iniciativas no artigo “Lessons From the Margins: Contextualizing, Reimagining, and Hacking Generative AI in the Global South”, publicado no Harvard Data Science Review recentemente. Andrés Domínguez Hernández, membro do Instituto Alan Turing, de Londres, Diana Mosquera e Francisco Gallegos, ambos da ONG Diversa, do Equador, mesclam suas atividades de pesquisa e ativismo para compreender como resistir às ondas hegemônicas do Vale do Silício.
Para ler mais: https://oplanob.com/o-sul-global-e-capaz-de-produzir-ias-alternativas-as-big-techs/
Segundo o 404 Media, o trumpismo inventou uma estética fascista tosca usando IA — o tal do AI slop.
"A nova estética fascista da administração Trump é definida por AI slop. De grotescos inspirados no Studio Ghibli a vídeos gerados por IA (Sora) de operações da ICE que nunca aconteceram viralizando no Facebook, Trump e seus apoiadores estão usando as ferramentas do momento para produzir propaganda porcaria. A diferença é que os vídeos de Trump não visam conquistar corações e mentes, mas sim ativar uma base de apoiadores em rápida diminuição."
https://www.404media.co/iran-is-winning-the-ai-slop-propaganda-war/
Mas parece que quem está mandando bem nisso é o pessoal do Irã, conquistando corações e mentes dos gringozinhos.
AVISO: TEM NEWS NOVA PRA SAIR
Olá, nós vamos lançar uma news no mês que vem. Vamos enviar quinzenalmente o que for publicado no site, além de dicas, links e outras coisas que eventualmente considerarmos interessante compartilhar com vocês.
Essa mensagem é pra te contar essa novidade e pedir pra que você já se inscreva lá.
Ajuda humanitária algoritmizada oferece riscos de produção de dados enviesados
As melhores práticas do humanitarismo sugerem que a ajuda se torna mais eficiente quando conta com pessoas próximas aos eventos ou conflitos. O “humanitarismo digital” encapsula novas metodologias, com capacidades preditivas. As análises são feitas a distância, por corporações internacionais, na sua grande maioria oriundas do Norte Global, que fornecem dados e dashboards para os financiadores tomarem decisões em seus escritórios assépticos, nas suas próprias sedes. Há um sério risco de produção de diagnósticos enviesados e a tomada de decisão não incluir as populações locais.
Esse problema foi analisado no artigo “Datafied localization: Reproducing unequal power hierarchies in humanitarianism”, lançado na revista Big Data e Society no número especial “Datafied Development” que examina o desenvolvimento baseado em dados e seus problemas para a promoção de justiça social. O trabalho foi escrito por Maria-Louise Clausen, Adam Moe Fejerskov e Sarah Seddig, todos do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais de Copenhague, na Dinamarca.
Os autores analisaram a atuação de duas empresas específicas: a Premise, estadunidense, e a startup Quilt.AI, com sede em Singapura. Ambas se anunciam como capazes de ajudar nas “tomadas de decisão” por meio de análises preditivas por IA.
https://oplanob.com/os-riscos-da-ajuda-humanitaria-algoritmizada/
#humanitarismo #globalsouth #surveillancecapitalism #bigtechs
Resistência política na sociedade comandada por algoritmos
Atualmente, os algoritmos estão em toda parte. Se, por um lado, os algoritmos parecem inevitáveis, por outro, haveria formas de resistir?
Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Goiás (UFG) consideram que a resistência ao poder dos algoritmos pode adquirir uma característica política no nosso tempo.
Os professores Ricardo Fabrino Mendonça, Fernando Filgueiras e Virgílio Almeida publicaram recentemente o artigo “Algoritmos, desidentificação e infrapolítica da resistência” na Revista Revista Brasileira de Ciência Política, abordando formas dessa resistência ou de ressignificação.
Desde práticas cotidianas como navegar anonimamente, ou usar máscaras para enganar os sistemas de reconhecimento facial, até ocultar mensagens em imagens, são expedientes que já fazem parte do repertório político de resistência da nossa sociedade cada vez mais guiada por algoritmos. Essas formas exercem um contrapoder na relação desigual entre as pessoas e grandes big techs que hoje monopolizam o ecossistema da Internet.
Para ler mais: https://oplanob.com/resistencia-politica-na-sociedade-comandada-por-algoritmos/
Cooperativismo e federações podem ser um dos caminho para um mundo pós big techs no Sul Global
Ultimamente tem surgido diversas iniciativas de cooperativismo de plataforma, soluções em que os trabalhadores são também donos e gestores das mesmas, controlando o processo algorítmico, sendo capazes de estabelecer suas próprias regras. O desafio é enorme, principalmente técnico, mas também de gestão e de convencimento do publico alvo em utilizar um novo aplicativo, por exemplo.
O pesquisador Felipe Gomes Mano, doutorando em Direito na Universidade Estadual Paulista (UNESP), se debruça sobre três experiências deste tipo no artigo "Cooperativismo de plataformas e federações de cooperativas: unindo forças na busca por soberania digital e autonomia no trabalho no contexto Norte-Sul", publicado no periódico Liinc em Revista, na edição especial que trata de questões de IA e soberania.
O estudo relata iniciativas da Argentina, Brasil e a experiências da Europa na construção de uma federação de cooperativas.
Para ler mais, acesse:
https://oplanob.com/cooperativismo-e-federacoes-podem-ser-um-dos-caminhos-para-um-mundo-pos-big-techs/
Colonialismo Digital na Índia e no Paquistão revela o embate entre soberania e vigilância
Há uma forma moderna de colonialismo que se materializa na Índia e no Paquistão pela dependência tecnológica de corporações externas como Google, Facebook e Amazon. Essas empresas exercem controle sobre recursos digitais dos países, gerem parte dos dados governamentais e também são responsáveis por boa parte da infraestrutura digital nesses países.
Nas últimas décadas, um novo aparato legal foi sendo construído a fim de pelo menos delimitar, em termos mínimos e jurídicos, as fronteiras digitais, no que se refere aos direitos humanos e de privacidade, obrigando corporações transnacionais a cumprir certas regras em cada território.
No artigo "From Sovereignty to Surveillance: The Legal Landscape of 'Digital Colonialism' in India and Pakistan", publicado na revista Vietnamese Journal of Legal Sciences, o pesquisador Muhammad Imran Ali, analisa o cenário da Índia e Paquistão. Ele é vinculado à Universidade Lahore Leads, no Paquistão e também faz comparativos com países como Brasil, Vietnã e Nigéria na sua pesquisa.
Para ler mais: https://oplanob.com/colonialismo-digital-na-india-e-no-paquistao-e-o-embate-entre-soberania-e-vigilancia/
“Se existe o nome, existe o bicho”: a história do colonialismo digital
A crítica sobre o poder das big techs e seus efeitos econômicos, políticos e sociais tem se tornado cada vez mais presente nas pesquisas acadêmicas e o termo “colonialismo digital” é um conceito chave para compreendermos as transformações atuais, principalmente no Sul Global.
Toussaint Nothias, da Universidade de Nova York, propõe uma análise histórica do conceito e de suas variantes como tecnocolonialismo, colonialismo tecnológico, colonialismo de dados, entre outros, presentes entre as disciplinas de humanidades e até na ciência da computação.
No recente artigo “An intellectual history of digital colonialism”, publicado no Jornal of Communication, ele revisa os precedentes e o papel do ativismo na popularização destes termos. Além da história do desenvolvimento do conceito, ele também destaca o papel do ativismo na popularização do termo.
Para ler mais: https://oplanob.com/se-existe-o-nome-existe-o-bicho-a-historia-do-colonialismo-digital/
Os esquemas pirâmides em plataformas e a lógica da exploração perpétua
Os modelos de negócios baseados em marketing multinível não são novos. No Brasil, há diversos tipos desses como Avon ou Herbalife, por exemplo. Com a emergência das plataformas, surgiram as pirâmides financeiras que prometem riqueza e liberdade mas, na verdade, organizam os indivíduos em ciclos de extração de valor, sem a venda de um produto físico. O modelo de negócio é, supostamente, oferecer cursos e formação para obter ganhos no mercado financeiro.
Segundo os pesquisadores Jacob Ørmen, Andreas Lindegaard Gregersen, Anne Mette Thorhauge e Linea Munk Petersen, ambos vinculados ao Center for Tracking and Society da Universidade de Copenhague na Dinamarca, estes tipos de empreendimentos formam uma rede complexa que envolve diversas plataformas, desde venda de serviços, perfis em redes sociais, até serviços de pagamento. Todos eles se relacionam e se complementam para formatar um “perfil empreendedor” e extrair o máximo de valor de pessoas empenhadas em investir tempo e dinheiro em construir um certo tipo de imagem, almejando obter retornos financeiros. Os dados da pesquisa estão disponíveis no artigo “Perpetual precarity: Cycles of value extraction in the platformised multi-level marketing scheme”, publicado na revista Platforms & Society.
Esses modelos de negócio compartilham e escancaram uma precariedade de relações de trabalho não pago a partir de uma mobilização de aspirações, vendendo-se como uma oportunidade de melhora de condição de vida que, infelizmente, raramente se realiza.
Para ler mais: https://oplanob.com/os-esquemas-piramides-em-plataformas-e-a-logica-da-exploracao-perpetua/
IA pós-socialista chinesa é alternativa ao neoliberalismo tech ocidental
Haveria alguma diferença entre a IA desenvolvida pela China e a dos outros países capitalistas ocidentais? Qiaoyu Cai, filósofo e professor da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara nos EUA, propõe o conceito de uma "IA pós-socialista" que vai além do paradigma dominante do informacionalismo neoliberal, na qual estão alicerçadas todas as outras IAs desenvolvidas no ocidente capitalista.
Leia mais em: https://oplanob.com/ia-pos-socialista-chinesa-e-alternativa-ao-tecnoneoliberalismo-ocidental/
Superexploração e uberização na América Latina
Quando se trata das transformações do trabalho causadas em função da introdução das big techs, logo vem à mente a chamada uberização. Contudo, ela não acontece de forma igual em todo lugar, especialmente no Sul Global. Por aqui, ela se combinou com outras formas existentes de trabalho precário.
É o que o pesquisador Federico De Stavola, da Universidade de Bérgamo, na Itália, chamou de “uberização diferencial” no artigo “Labour super-exploitation in differential uberisation: A Latin American perspective on the platform economy”, publicado no periódico Platforms & Society.
O pesquisador calculou que só por transferir, aproximadamente, 10% dos custos, como frota e equipamentos de trabalho, a taxa de lucro da plataforma poderia aumentar mais de 20%. Um ganho enorme extraído diretamente do patrimônio e do bem-estar do trabalhador.
Para ler mais: https://oplanob.com/superexploracao-e-uberizacao-na-america-latina/
Os data-centers no sul global são a face concreta do colonialismo digital
Somente um data center no sul do país pode gastar mais energia que uma hidrelétrica inteira no rio Madeira. A estimativa é que essa demanda triplique no eixo São Paulo-Campinas até 2030 para alimentar os servidores que hospedam os algoritmos das IAs das big techs. A grande maioria desses empreendimentos são controlados por empresas estrangeiras, ou mesmo pelas próprias big techs, o que levanta questões relacionadas à soberania, à dependência tecnológica e ao colonialismo digital.
Essa discussão é feita no artigo “Inteligência artificial, data centers e colonialismo digital: Impactos socioambientais e geopolíticos a partir do Sul Global”, escrito por Renato Guimarães Furtado e Simone Evangelista Cunha, ambos pesquisadores da UERJ. O trabalho foi publicado no periódico Liinc em Revista, na edição especial do Dossiê sobre “IA e a Questão da Soberania”. Os autores analisaram o desenvolvimento dos data centers no país nos últimos 12 anos e perceberam que a maior parte são controlados por estrangeiros, principalmente norte-americanos.
O Brasil, que concentra a maior parte dos data centers da América Latina, corre o risco de, além de ser um exportador de commodities agrícolas, acabar por ser o lugar da monocultura tecnológica do século: os data centers que rodam os algoritmos das IAs das big techs.
Para ler mais: https://oplanob.com/data-centers-instalados-no-sul-global-sao-a-face-concreta-do-colonialismo-digital/
IAs interpretam emoções, plataformas modulam comportamentos. É possível uma subjetividade soberana?
Cada vez mais as IAs se utilizam de técnicas algorítmicas para interpretar nossas emoções e influenciar nosso comportamento. Para além das implicações políticas ou econômicas, parece haver uma questão mais profunda: como garantir soberania digital considerando a subjetividade dos sujeitos na sua relação com as máquinas?
A partir desta indagação, pesquisadores publicaram o artigo “IA emocional e design capcioso: a questão da soberania para a subjetividade” no periódico Liinc em Revista, numa edição especial voltada a refletir sobre questões de IA e soberania. A pesquisadora Fernanda Bruno, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, assina o estudo conjuntamente com outros três pesquisadores: Paulo Faltay (Universidade Federal de Pernambuco), Alice Lerner e Helena Strecker (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Se inspirando na perspectiva de tecnodiversidade, os autores do artigo propõe a pensar na importância de uma abordagem coletiva na construção da soberania digital e tecnológica, reconhecendo as complexidades na relação entre humanos e sistemas de IAs. Ou seja, não há saídas individuais.
Leia mais em: https://oplanob.com/ias-interpretam-emocoes-plataformas-modulam-comportamentos-e-possivel-uma-subjetividade-soberana/
Sistema de identificação biométrica da Índia faz elo entre passado colonial e nacionalismo tecno-cultural
A Índia se tornou um grande terreno de testes para o uso da biometria no Sul Global. O sucesso da implantação do Adhaar se tornou uma referência mundial como um poderoso sistema de identificação biométrica.
O governo indiano promove uma narrativa de "nacionalismo tecno-cultural", usando o discurso de colonização de dados para afastar players estrangeiros e promover soluções locais - como o RuPay - como um serviço nacional. Isso seria um meio de produzir um sistema de extração de dados com base num ethos nacionalista ainda que funcionem de uma maneira equivalente, com as mesmas premissas e objetivos.
Kavita Dattani, professora na Universidade de Washington em Seattle, afirma que o sistema reencena tendências coloniais do passado por meio de novos atores e mecanismos. Ela estuda a relação entre o Estado indiano, entidades corporativas e as fintechs que trabalham para promover — e coagir — a população para uma financeirização digital obrigatória. Ela publicou sua pesquisa no periódico Journal of Cultural Economy, no artigo intitulado “Spectrally shape-shifting: biometrics, fintech and the corporate-state in India”.
Para ler mais: https://oplanob.com/sistema-de-identificacao-biometrica-da-india-faz-elo-entre-passado-colonial-e-nacionalismo-tecno-cultural/
Luta de gigantes: a brutal distância entre o Norte e Sul nos investimentos para IAs
Venture capital são um indicador de onde estão correndo os rios do ecossistema digital global.
Um artigo de Bruno Prado Prates, doutorando em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Tulio Chiarini, vinculado ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), se debruça em compreender os maiores investimentos em IA dos EUA e da China. Os autores utilizam a perspectiva de centro-periferia de Celso Furtado.
O estudo utilizou dados da Crunchbase e demonstrou que enquanto as maiores big techs dos EUA e China investem pesadamente em IA e setores estratégicos como software, saúde e e-commerce nos seus respectivos países, para América Latina e África sobram alguns investimentos em setores mais tradicionais como o financeiro e comercial, com desenvolvimento limitado de IA.
Vigilância e resistências entre trabalhadores especializados na China: “tenho receio de ser substituído por uma IA”
Os chamados “trabalhadores do conhecimento”, profissionais cujas atividades se baseiam em criar, compartilhar e gerir conhecimento especializado, ligados principalmente às áreas de tecnologia da informação (TICs) ou da indústria criativa, representam um volume considerável da massa laboral chinesa. Aliado ao avanço das TICs, a vigilância se sofisticou em relação ao chão de fábrica. Agora há registros de presença, controle de produtividade via aplicativos, históricos de edição em documentos compartilhados e sistemas de monitoramento baseados em algoritmos, mesmo em trabalhos remotos. Esse panorama se intensificou ainda mais no contexto da pandemia.
As professoras Weiming Ye, da Universidade de Pequim e Luming Zhao, da Universidade de Fundan, realizaram uma pesquisa qualitativa em profundidade, questionando como os trabalhadores do conhecimento chineses percebem o trabalho, como é que a vigilância está interligada com esse significado e suas respectivas formas de resistências. Os resultados foram publicados no artigo “Knowledge Workers of the Digital World, Unite! Knowledge Workers’ Workplace Surveillance and Hidden Transcripts in China”, na revista acadêmica International Journal of Communication.
Há uma “contradição estrutural” enfrentada por esses trabalhadores: ao mesmo tempo que são os agentes de um certo progresso digital, são o público que mais convive com diferentes estratégias de vigilância do seu trabalho cotidiano.
Caravelas são traduzidas em código no colonialismo digital
Se o colonialismo clássico fincava bandeiras para extrair ouro e produtos agrícolas, o colonialismo digital perfura a subjetividade humana para extrair dados. Não se trata apenas de software, mas de uma "capitalização da vida humana sem limites".
Esta é uma das conclusões exploradas no no artigo "Tecnologias de exploração: colonialismo, cotidiano e relações de trabalho no capitalismo digital", publicado na Revista Convergência Crítica pelos pesquisadores Bruna Rocha (UFBA), Cássio Santana (UFBA) e Paulo Victor Melo (Universidade Nova de Lisboa).
Para ler mais: https://oplanob.com/caravelas-sao-traduzidas-em-codigo-no-colonialismo-digital/
No Douyn, o Tiktok “chinês”, criadores de conteúdos compram tráfego e negociam com os anunciantes
Utilizado por mais de 750 milhões de pessoas na China e pouco conhecido no ocidente, o Douyin é o irmão gêmeo do TikTok, uma plataforma de vídeos curtos criado pela mesma empresa, a ByteDance.
Seu sucesso local estrondoso também revela uma plataforma robusta para os chamados criadores de conteúdo. A plataforma intermedeia e conecta os anseios de anunciantes e criadores, lucrando um percentual do negócio. A grande diferença das big techs estadunidenses é que as ferramentas de recompensas geram um pouco mais de previsibilidade no Douyin.
É o que aponta um estudo de Yang Huang e WeiMing Ye, ambos da Universidade de Pequim, publicado na revista acadêmica Convergence: The International Journal of Research into New Media Technologies. O artigo, intitulado “‘Traffic rewards’, ‘algorithmic visibility’, and ‘advertiser satisfaction’: How Chinese short-video platforms cultivate creators in stages” relata uma pesquisa em profundidade com 19 criadores de conteúdo da plataforma.
Para ler mais: https://oplanob.com/no-douyn-o-tiktok-chines-criadores-de-conteudos-compram-trafego-e-negociam-com-os-anunciantes/